Tecnologia

OCR, código QR ou IA: qual a melhor forma de ler faturas?

Compara OCR, código QR e inteligência artificial na leitura de faturas: que dados dá cada método, onde falha e quando continua a ser precisa revisão humana.

Equipa Manecas 8 min de leitura

Ler uma fatura não é ver o que lá está escrito. É saber o que cada número quer dizer.

Há três formas principais de tirar dados de uma fatura sem os digitar: o OCR, o código QR que as faturas portuguesas trazem impresso e a inteligência artificial. Muitas vezes são apresentadas como alternativas, mas dão informação diferente, falham em sítios diferentes e servem para coisas diferentes.

Este artigo explica o que cada método consegue extrair, onde tropeça e porque é que, no processamento contabilístico, a resposta certa costuma ser combiná-los com validações e revisão humana.

Como funciona o OCR

OCR (reconhecimento ótico de caracteres) é a tecnologia que transforma uma imagem em texto. Recebe um PDF digitalizado ou uma fotografia e devolve os caracteres que lá encontra.

O OCR clássico aplicado a faturas trabalha normalmente com modelos por fornecedor: indica-se em que zona da página está o NIF, a data ou o total, e o sistema lê essa zona. Funciona bem enquanto o fornecedor não mudar o desenho da fatura.

As limitações são conhecidas:

  • Depende da qualidade da imagem. Fotografias tremidas, sombras, papel amarrotado ou digitalizações inclinadas geram erros.
  • Confunde caracteres parecidos. Um 0 lido como O, um 1 lido como l, ou uma vírgula decimal trocada por um ponto mudam um valor sem que ninguém repare.
  • Não percebe o significado. O OCR devolve texto, não sabe qual dos dois NIF é o do fornecedor, se um valor é o subtotal ou o total, nem onde começa e acaba cada linha da fatura.
  • Parte-se quando o modelo muda. Um fornecedor novo ou um desenho de fatura diferente obriga a configurar tudo de novo.

O OCR é útil como primeira camada, mas sozinho entrega texto, não dados contabilísticos.

O que diz o código QR das faturas portuguesas

Desde 1 de janeiro de 2021, as faturas e os outros documentos fiscalmente relevantes emitidos por programas de faturação certificados pela AT têm de incluir um código QR, gerado segundo as especificações técnicas publicadas pela AT. A obrigação resulta do Decreto-Lei n.º 28/2019 (artigo 7.º, n.º 3) e da Portaria n.º 195/2020. Desde 1 de janeiro de 2023 é também obrigatório o ATCUD, o código único do documento, que aparece em todos os documentos, incluindo os impressos em tipografia.

O código QR é uma síntese fiscal estruturada do documento. Segundo as especificações técnicas da AT (versão 1.1), contém:

Informação Está no código QR?
NIF do emitente e do adquirente Sim
País do adquirente Sim
Tipo, estado, data e número do documento Sim
ATCUD Sim
Base tributável e IVA por taxa e por espaço fiscal Sim
Total de impostos e total do documento Sim
Retenções na fonte e imposto do selo Sim, quando existem
Caracteres do hash e número do certificado do programa Sim
Nome e morada do fornecedor Não, só o NIF
Linhas da fatura (descrição, quantidades, valores por artigo) Não
Data de vencimento Não

Os pontos fortes do código QR são evidentes: os valores vêm do próprio programa que emitiu a fatura, num formato fixo, e lê-se de forma determinística, sem interpretação. Para confirmar totais e taxas, é uma fonte excelente.

Mas tem limites importantes:

  • Não tem as linhas. Sem a descrição do que foi comprado, não é possível decidir em que conta lançar a despesa nem se o IVA é dedutível.
  • Nem todas as faturas o têm. Faturas de fornecedores estrangeiros e documentos impressos em tipografia autorizada não trazem o código QR português.
  • Precisa de uma imagem legível. Uma fotografia cortada ou desfocada pode tornar o código ilegível.

O que a inteligência artificial acrescenta

Os modelos de IA atuais leem o documento como uma pessoa o leria: olham para o desenho da página inteira, percebem qual dos NIF pertence ao fornecedor, identificam a tabela de artigos e associam cada valor à sua taxa de IVA. Por isso funcionam com fornecedores e desenhos novos sem configuração prévia.

Com IA, é possível extrair o que o código QR não tem:

  • o nome do fornecedor e outros dados de identificação;
  • cada linha da fatura, com a descrição e o valor;
  • a data de vencimento e as condições de pagamento, quando aparecem no documento;
  • faturas de fornecedores estrangeiros e documentos sem código QR.

O risco também é próprio da IA: um modelo pode ler mal um valor ou propor um dado que não está no documento, e fá-lo com o mesmo ar convincente com que acerta. Por isso, a leitura com IA tem de ser sempre seguida de verificações que não dependem do modelo: refazer as contas, confirmar o NIF, verificar as taxas de IVA e, quando a fatura tem código QR, comparar os totais.

Comparação lado a lado

Critério OCR Código QR Inteligência artificial
NIF, data e totais Sim, se a imagem for boa Sim, estruturados Sim
Linhas da fatura Texto sem estrutura Não Sim
Nome do fornecedor Como texto Não Sim
Data de vencimento Como texto Não Sim, quando existe
Faturas sem código QR Sim Não Sim
Novos desenhos de fatura Precisa de configuração Não se aplica Sem configuração
Precisa de validação Sim Confirmar que pertence ao documento Sim

Quando continua a ser precisa revisão humana

Nenhum dos três métodos decide sozinho o que tem consequências fiscais. Há situações em que a revisão por uma pessoa continua a ser indispensável:

  • quando a imagem é de má qualidade e há valores que não se conseguem confirmar;
  • quando o documento não é uma fatura, como um orçamento, uma guia de remessa ou uma pró-forma;
  • quando a fatura foi emitida a consumidor final ou a outra empresa;
  • quando a dedutibilidade do IVA depende de informação que não está no documento, como o uso dado a uma despesa;
  • quando a classificação contabilística exige julgamento, por exemplo uma despesa que pode ser um investimento.

O objetivo da automação não é eliminar a revisão. É garantir que a revisão é feita só onde faz diferença, com o motivo da dúvida à vista, em vez de a equipa voltar a conferir todas as faturas uma a uma.

Aplicações práticas no processamento contabilístico

Num processo bem desenhado, cada fonte faz aquilo em que é melhor:

  1. A IA lê o documento completo, incluindo as linhas, o fornecedor e as datas.
  2. As validações confirmam os números: o total tem de ser a soma das bases e do IVA, as taxas têm de ser as aplicáveis e o NIF tem de ser válido.
  3. O código QR, quando existe, serve de controlo para os totais e as taxas declarados pelo emitente.
  4. O e-Fatura serve de lista de controlo para saber que faturas existem. Os elementos comunicados à AT não incluem a descrição dos bens ou serviços (artigo 3.º do Decreto-Lei n.º 198/2012), por isso não substituem a leitura da fatura.
  5. A pessoa decide o que ficou assinalado.

Um exemplo simples: uma fatura de eletricidade com duas linhas, energia ativa de 318,40 € e potência contratada de 94,50 €. A base tributável é 412,90 €, o IVA a 23% é 94,97 € e o total é 507,87 €. O código QR confirmaria a base, o IVA e o total; só a leitura do documento mostra as duas linhas, que podem ter tratamentos diferentes se a empresa as quiser repartir por centros de custo.

No Manecas, a leitura automática de faturas usa IA para ler o documento inteiro, incluindo as linhas, e as validações refazem as contas e confirmam o NIF antes de a fatura chegar à revisão. A partir daí, a preparação contabilística propõe a classificação de cada linha.

Conclusão

Qual é a melhor forma de ler faturas? Nenhuma sozinha. O OCR transforma imagens em texto, o código QR dá uma síntese fiscal fiável mas sem linhas, e a IA interpreta o documento completo mas precisa de ser verificada. Para o processamento contabilístico, a combinação que funciona é IA para ler, regras para validar, código QR e e-Fatura para controlar, e uma pessoa para decidir o que tem consequências.

Se quiseres ver como fica esta leitura com as tuas faturas, podes experimentar o Manecas durante 7 dias.

Fontes consultadas

Última atualização: