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Preços da habitação sobem, transações caem: o que as PME devem rever

O INE indica que os preços da habitação subiram 16,5% no 2.º trimestre, mas as vendas caíram 6,4%. Veja como rever margem, liquidez e tesouraria.

Equipa Manecas 6 min de leitura

O mercado da habitação enviou um sinal pouco confortável no 2.º trimestre de 2026: os preços continuaram a subir com força, mas venderam-se menos casas. Segundo o INE, o Índice de Preços da Habitação aumentou 16,5% em termos homólogos, enquanto o número de alojamentos transacionados caiu 6,4% face ao mesmo trimestre de 2025.

Para PME de construção, mediação, promoção imobiliária e serviços ligados ao setor, a leitura útil não é “o mercado está ótimo” nem “o mercado está mau”. É mais simples e mais incómoda: preço não é liquidez. Um ativo pode valorizar, uma carteira de propostas pode parecer robusta e, ainda assim, a empresa pode sentir mais risco nos prazos de venda, nas comissões, nos autos de obra, nas compras e na tesouraria.

Entre abril e junho de 2026, foram vendidos 40.142 alojamentos, no valor total de 10,7 mil milhões de euros. O valor transacionado ainda subiu 4,2% em termos homólogos, mas o volume caiu. Também houve menos compras por compradores com domicílio fiscal fora de Portugal: 1.890 alojamentos, 4,7% do total, uma redução homóloga de 10,3%.

O que os dados mostram

O primeiro dado a separar é preço. O índice subiu 16,5% em termos homólogos, ainda que com uma taxa 1,3 pontos percentuais abaixo da observada no trimestre anterior. As casas existentes subiram mais do que as novas: 18,0% contra 12,3%.

O segundo dado é volume. O INE contabilizou 40.142 alojamentos vendidos no trimestre, menos 6,4% do que no mesmo período de 2025. Isto significa que o mercado pode estar a gerar valores médios mais altos sem gerar necessariamente mais operações.

O terceiro dado é composição da procura. As compras por compradores com domicílio fiscal fora do território nacional representaram 4,7% do total e caíram 10,3% em termos homólogos. Para empresas expostas a zonas ou segmentos dependentes desta procura, isto merece análise própria, não uma conclusão apressada.

Nenhum destes números descreve uma empresa concreta. Mas juntos justificam uma pergunta prática: a empresa está a gerir o negócio por valor potencial ou por caixa provável?

Preço de venda não é caixa em banco

Numa empresa de construção ou promoção, uma subida de preços pode melhorar a margem esperada de um projeto. Mas só melhora a tesouraria quando há venda, recebimento e controlo dos custos até à entrega. Pelo caminho há salários, subempreitadas, materiais, licenças, juros, impostos, seguros, comissões e prazos de pagamento.

Se o número de transações cai, o risco principal pode estar no tempo. Imóveis mais caros podem demorar mais a vender, compradores podem negociar mais, bancos podem demorar na aprovação de crédito e clientes podem adiar decisões. A margem no Excel fica simpática; a conta bancária, menos dada a romantismos.

Para mediadoras, o efeito também não é automático. Um preço médio mais alto pode aumentar a comissão por venda, mas uma redução no número de operações pode reduzir o fluxo de comissões, alongar ciclos comerciais e aumentar o custo por negócio fechado. A métrica a acompanhar não é só valor de carteira: é propostas ativas, visitas, reservas, escrituras fechadas, prazo médio de venda e recebimentos previstos.

Rever margens e prazos por projeto

A primeira revisão deve ser feita por obra, promoção, carteira ou equipa comercial. Liste o preço previsto, preço mínimo aceitável, custos realizados, custos por realizar, margem esperada, prazo provável de venda e data esperada de recebimento.

Depois teste três cenários. No cenário base, use os pressupostos mais prováveis para prazo de venda, custos ainda por realizar e calendário de recebimento. No prudente, assuma vendas mais lentas, redução de preço ou atrasos no financiamento. No favorável, pode assumir venda mais rápida ou menor pressão negocial, mas apenas quando existirem sinais objetivos na pipeline.

A previsão de caixa confirmada deve ser tratada separadamente: inclua apenas recebimentos contratados ou suficientemente sustentados por documentação e avanço real do processo, não visitas, pedidos de informação ou manifestações de interesse.

Para empresas de construção, vale cruzar esta leitura com a revisão de orçamentos e custos de obra. Se os custos de materiais, mão de obra ou subempreitadas ainda estiverem a subir, a empresa pode ter uma margem de venda maior no papel e uma margem operacional menor na prática. Para aprofundar esta análise, veja como os custos de construção de habitação nova afetam margens e tesouraria.

Crédito, procura e risco comercial

Quando uma venda depende de crédito, o calendário real passa a incluir aprovação bancária, avaliação, escritura e eventuais renegociações. Este ponto não explica, por si só, a evolução dos preços ou das transações; ajuda apenas a transformar oportunidades comerciais em previsões de recebimento mais prudentes.

Por isso, a equipa deve separar contactos comerciais de negócios financiáveis. Uma reserva sem confirmação de financiamento tem risco diferente de uma escritura marcada. Um comprador com capitais próprios tem calendário diferente de outro dependente de crédito. Um investidor estrangeiro tem exigências documentais e fiscais diferentes de uma família residente.

Esta separação ajuda a prever caixa. Se a empresa mistura todas as oportunidades numa única pipeline, pode sobrestimar receitas próximas e assumir compras, contratações ou compromissos antes de ter liquidez suficiente.

Checklist para os próximos dez dias

  1. Separar imóveis, obras ou oportunidades por estado: contacto, proposta, reserva, CPCV, crédito aprovado, escritura ou faturação.
  2. Medir prazo médio entre primeiro contacto, reserva, escritura e recebimento.
  3. Atualizar custo por obra ou promoção, distinguindo custos fechados de custos ainda expostos a revisão.
  4. Recalcular margem por cenário: base, prudente e favorável.
  5. Identificar dependência de compradores não residentes ou de segmentos específicos de procura.
  6. Atualizar a previsão de tesouraria a 13 semanas com recebimentos prováveis, não apenas vendas desejadas.
  7. Rever compromissos de compras, subempreitadas e marketing à luz do prazo real de venda.
  8. Arquivar contratos, faturas, autos, comprovativos, reservas, CPCV e comunicações por projeto.

Onde entra o Manecas

O Manecas não avalia imóveis, não prevê preços e não substitui a análise comercial, financeira ou contabilística. A ligação honesta está na organização documental: faturas, contratos, autos, comprovativos, notas de crédito, despesas por obra, comunicações com fornecedores e documentos de clientes precisam de estar acessíveis para que a empresa e o contabilista consigam fechar contas e rever tesouraria.

Quando os documentos estão dispersos por emails, fotografias, pastas e mensagens, a empresa decide com base em memória. Quando estão organizados por projeto, fornecedor e período, é mais fácil perceber se a subida de preços está realmente a melhorar margem e caixa ou apenas a decorar relatórios.

À data de verificação deste artigo, 23 de setembro de 2026, a análise factual baseia-se no destaque do INE publicado em 22 de setembro de 2026 sobre o Índice de Preços da Habitação no 2.º trimestre de 2026. Os dados são agregados e não substituem a leitura dos números próprios de cada empresa.

Fontes consultadas

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